Felicidade e Sucesso: A Busca por Dinheiro

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10/1/20264 min read

As Vezes Você Está Indo Longe Demais Para Achar o Que Já Tem

Teodoro tinha quarenta e três anos, doze alqueires de terra e uma inquietação que não sabia nomear. O sítio não era ruim. Tinha um córrego de água limpa cortando o terreno ao meio, uma casa que o pai levantou em 1961 e uma jabuticabeira tão velha que ninguém da família lembrava quem plantou. Dava café, dava milho, dava o suficiente. Mas o suficiente, para Teodoro, tinha começado a parecer pouco.

A culpa foi de um caminhoneiro. Ele parou na porteira numa tarde de sábado para pedir água para o radiador e ficou duas horas na varanda, tomando café e contando de um lugar distante onde homens tiravam ouro do barro com as próprias mãos. Falou de um cunhado que chegou lá sem nada e voltou de caminhonete nova. Teodoro escutou calado. Quando o homem foi embora, ficou olhando o córrego correr no mesmo lugar de sempre e achou aquilo de uma monotonia insuportável.

Naquela noite sonhou com um rio brilhando. Sonhou de novo na seguinte. Na terceira, acordou decidido.

O vizinho, Benedito, fez uma oferta pelo sítio. Era baixa, e Teodoro sabia. Aceitou assim mesmo, porque pensar muito atrapalhava. Benedito era um homem de poucas palavras, que gostava de acordar cedo e ficar olhando a terra sem pressa. Pagou à vista, apertou a mão de Teodoro e perguntou só uma coisa: "Tem certeza?"

"Tenho", disse Teodoro. Não tinha. Mas dizer em voz alta ajudava.

Passou quatro anos longe. Dormiu em barraca, teve malária duas vezes, viu um homem morrer soterrado por causa de um pedaço de barranco que ninguém quis escorar. Achou ouro uma vez, pouco, e perdeu no jogo na mesma semana. No quinto ano estava magro, com um dente a menos na frente e uma dívida com o dono da cantina, cujo nome já nem lembrava direito. Foi dali que escreveu a primeira carta para casa em muito tempo. Não pedia nada. Perguntava se a jabuticabeira ainda estava de pé.

Benedito nunca saiu de lá. No segundo inverno depois da compra, aprofundando o leito do córrego para a água chegar melhor ao cafezal, sem ter que mexer na jabuticabeira, viu uns grãos amarelos no cascalho. Pensou que fosse mica. Levou um punhado a um ourives na cidade, que demorou bem mais do que o necessário para responder. Era ouro de aluvião, o bastante para pôr três filhos na faculdade e reformar a casa do velho sem encostar na jabuticabeira.

A carta chegou numa terça. Benedito leu duas vezes, dobrou o papel e guardou no bolso da camisa. Não respondeu.

Teodoro voltou de ônibus e fez o último trecho a pé. Parou a poucos passos da porteira. A jabuticabeira estava lá, carregada, o tronco preto de tão grosso. Benedito o viu da varanda, levantou da cadeira devagar e não disse nada. Havia água no fogo. Teodoro apoiou a mão no mourão que ele mesmo tinha trocado anos antes, e ficou assim por um tempo.

A mesma cena, de novo e de novo

A história de Teodoro é inventada. O enredo, nem tanto.

Ele se repete há séculos, em fábulas, em romances, em livros de gente que passou a vida estudando por que as pessoas fazem o que fazem. O fazendeiro vende a terra para procurar riqueza longe. Anos depois, o novo dono encontra a riqueza no quintal. Muda o cenário, muda o tesouro, muda o idioma. A cena é a mesma, e talvez por isso ela nunca envelheça: quase todo mundo conhece alguém assim. Quase todo mundo já foi.

Por que a gente sai

Existe uma explicação conhecida pela psicologia positiva, a adaptação hedônica. O que temos por perto vai perdendo cor com o tempo, não porque piore, mas porque o cérebro se acostuma. Teodoro nunca reclamou do córrego e nem da jabuticabeira. Ele só tinha parado de vê-los.

Tem também o problema de quem conta a história. O caminhoneiro falou do cunhado que voltou de caminhonete. Não falou dos que ficaram lá com malária e uma dívida na cantina, porque esses não voltam para contar. A distância ganha prestígio de graça, e o que está perto parece sem história.

E sair parece ação, enquanto ficar parece omissão. Quem trabalha em empresa grande conhece o roteiro: a promoção que exige mudar de cidade, o projeto de nome importante em outra área, a proposta de fora que chega justo quando o time atual está cansado. Algumas dessas saídas são certas. Outras são o Teodoro escutando o caminhoneiro.

Há perguntas simples que quase ninguém faz antes de partir. O que eu tenho aqui que ainda não olhei direito? Se esse lugar distante me desse tudo o que promete, o que exatamente mudaria dentro de mim? Estou indo atrás de algo ou estou fugindo de algo? A resposta honesta nem sempre agrada. Mas costuma economizar quatro anos de barraca.

Nem tudo que a gente deixa é tesouro

Seria fácil terminar aqui, com o conselho de que a riqueza está sempre no quintal e que quem parte se engana. Mas isso também seria uma mentira confortável.

Nem tudo que você deixa para trás é bom. Há casas de onde é preciso sair. Há empregos que adoecem, relações que machucam, cidades que apertam, hábitos que ninguém devia carregar por mais um dia. Se Teodoro estivesse num sítio onde a água era envenenada e a terra não dava nada, partir seria a decisão mais sensata da vida dele. O que o fez perder não foi ter saído. Foi ter saído sem olhar o que deixava.

Por isso a pergunta não é se você deve ficar ou partir. É se você sabe, de verdade, o que está deixando. Nem tudo o que fica para trás é ouro, e nem tudo o que brilha ao longe é o caminho. Só quem olha com calma para os dois lados consegue enxergar a diferença.